Sobre Interferências…

16/12/2009

Destruir para construir, apagar o passado identificado com o atraso […] O plano da cidade ideal é a referência para a cidade real. Quantitativamente esta deveria ajustar-se ao valor de qualidade daquela, para atender as demandas das elites. A simetria, porém, se rompe pela ação da ‘desordem’ dos eventos da cidade real que surgem na cena, mesmo enfrentando os mecanismos de controle oficial. (GOMES, p. 106)

A intervenção fotográfica não é propriamente uma novidade para fotógrafos e pesquisadores. Propriamente, desde os primeiros passos da fotografia aqueles que a operam realizam interferências em sua composição. Corroborando com esta afirmativa apresentamos as ideias de Annateresa Fabris, que em sua obra Identidades Visuais apresenta as primeiras iniciativas para alteração das imagens.

Inventada pelo suíço Johann Baptiste Isering, a técnica do retoque deixa logo de ser aplicada apenas à pintura das pupilas para tornar-se um instrumento de embelezamento do daguerreótipo (…) O alemão Franz Hampsfstängl inventa posteriormente o retoque do negativo, dando início a um processo considerado deletério por Gisèle Freund, por despojar a fotografia de seu valor essencial de reprodução fiel de uma realidade. (FABRIS, p. 4)

Antes, contudo, de analisarmos de que modo as interferências foram se sucedendo até alcançar, na atualidade, a perícia técnica e filosófica que as conduz ao centro de discussões do universo acadêmico, bem como analisar de que modo as cidades e a paisagem urbana contribui para este processo , é preciso fundamentar de que forma a construção do olhar contemporâneo contribui para esta realidade.

O século XIX foi marcado por intensa urbanização – quando a população mundial atingiu a inédita marca de um bilhão de habitantes –, consequência direta das revoluções Industrial e Francesa e da derrocada dos Estados Modernos e seu sistema colonial. A população migrando para as cidades acelera o processo de urbanização e conduz à novas perspectivas e descobertas em especial das paisagens que se configuram e descortinam.

A partir do aparecimento da massa urbana na paisagem citadina do século XIX os cidadãos vão se confrontar nas ruas com uma série de informações e estímulos. (BESSA,  p.2)

Avançando pelo século XIX e início do XX tem-se o surgimento de diversas modalidades de captação de imagens, chegando ao seu ápice com o advento da fotografia.

Desde os primórdios da fotografia a paisagem urbana é elemento que exerce grande fascinação em seus operadores.  Destaca-se, por seu olhar diferenciado, o fotógrafo Atget, que por meio de uma estética surrealista expunha a cidade de Paris.

As fotos parisienses de Atget são as precursoras da fotografia surrealista (…)Ele buscava as coisas perdidas transviadas e, por isso, tais imagens se voltam contra a ressonância exótica, majestosa, romântica, dos nomes das cidades; elas sugam a aura da realidade como uma bomba suga a água de um navio que afunda. (BENJAMIN, pp. 100, 101)

O grande diferencial fotográfico apresentado pela estética surrealista, para Walter Benjamin (BENJAMIN, p. 106) foi justamente ter preparado o caminho para a construção de uma fotografia artificial, fabricada segundo as demandas do fotógrafo.

Foi, portanto, embasados nesta linha de raciocínio que empreendemos esta iniciativa. Com influências de fotógrafos surrealistas e embasados pelo pressuposto de que nossa “visão está em constante atividade, sempre em movimento, sempre captando coisas num círculo à sua volta, constituindo aquilo que nos é presente, tal como somos” (in: Modos de Ver, p. 13) desenvolvemos este projeto.

Para Susan Sontag “a força de uma foto reside em que ela mantém abertos para escrutínio, instantes que o fluxo normal do tempo substitui imediatamente” (SONTAG, p. 127) desta forma a fotografia – original, sem alterações ou interferências – por si só tem a capacidade intrínseca de, por deixar um momento em suspensão, criar uma discussão e interpretação sobre ele.

Este escrutínio, não raro está associado à uma determinada forma/formato empregado pelos fotógrafos para registrar dado momento, posto que a visão se acomoda à fotografia a medida que uma determinada técnica, modus operandi é reutilizado.

Para o fotógrafo Weston, a beleza é, em si, subversiva e “a fotografia retirou as vendas para uma nova visão de mundo”(Weston apud SONTAG, p. 115) visão esta que Susan Sontag, disserta sobre em sua obra. Para a autora “a visão fotográfica tem de ser constantemente renovada por meio de novos choques, seja de temas, seja de técnicas, de modo a produzir a impressão de violar a visão comum” (SONTAG, p.115).

Em nossas interferências, foi justamente esta visão comum e ultrapassada do fazer fotografia, especialmente associada à paisagem urbana que buscamos alterar/ quebrar.  E a forma mais difundida para realizar este rompimento com o utilizado até então é o choque. Chocar é a forma de promover ruptura daqueles que pretendem revolucionar uma determinada área, como fez Atget no século XIX. Nosso objetivo é, portanto, chocar o público e, com isso conduzi-lo à criatividade e à inventividade, à nova leitura do fenômeno fotográfico.

A impressão geral é que o chocs se multiplicam a cada avanço tecnológico. (BESSA, p. 9)

Procurando intensificar o choque promovido pelas imagens e, ao mesmo tempo, apresentar novas possibilidades técnicas não poupamos em nosso projeto o uso de ferramentas tecnológicas/digitais extrínsecas à câmera fotográfica – que em nosso modo de ver atuam como qualquer outro recurso analógico. Utilizamos em grande parte softwares de tratamento de imagem que possibilitam, por exemplo, múltiplas exposições e composição de planos, tornando frequentes a presença destes elementos.

Ao contrário do que se é discutido em muitos ciclos a informatização do processo fotográfico não torna menos merecedor o ato de fotografar, mas sim o deixa mais acessível e torna, sim, mais elevamos os critérios de julgamento do que é arte ou não.

Para além desta discussão, no entanto, pretendemos reforçar o caráter artístico de iniciativas que envolvem as novas tecnologias e, assim, estimular a produção de conteúdos.

A criatividade e inventividade, levam à busca e escolha de soluções diferenciadas não apenas no campo da arte – e fotografia por definição –, mas também no campo político, econômico e social. Intervenções urbanas, nesse sentido, vem à lume para apresentar um novo conceito de análise e compreensão social através do uso e empréstimo de estéticas, elementos midiáticos, signos e símbolos integrantes de variados universos de significado.

Partiremos então para a análise das intervenções urbanas que realizamos na cidade do Rio de Janeiro.

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